Deixa me viver
Neste momento eu nasci, sou um par de sapatos que acabou de ser criado.
Não sou um par de sapatos comum, nada disso, sou feito pelas mãos do mais ilustre
"mestre sapateiro"dessa região, seus sapatos são os mais famosos e andam nos
pés mais ilustres da sociedade.
Portanto, eu, que sou do mais puro cromo alemão,
estou predestinado a um pé da alta sociedade.
Estou na vitrine da loja e mal cheguei e o povo já esta parando para me admirar.
Também, sou reluzente, sou macio e bem feito, quem não gostaria de me possuir?
Durante 3 dias sou cortejado por milhares de olhos,
até que um jovem e elegante senhor,
entra na loja e pede para me ver...
Meu coração dispara ao contato daquelas mãos,
sinto como se já as conhecesse de longas datas,
foi amor a primeira vista, e de ambas as partes, pois o jovem senhor,
imediatamente pagou o valor pedido, e me levou embora.
Chegamos a um carro elegante estacionado em frente a loja,
a porta foi aberta elegantemente por um motorista
que estava impecavelmente vestido,
mostrando o quanto meu "dono"era importante.
Ao chegar em sua casa, sou colocado em elegante
armário onde outros pares de sapato
me olham com profunda inveja, afinal estou novinho,
brilhante e radiante de felicidade.
Quatro dias depois, sinto aquelas mãos amigas me pegando e calçando-me,
levou me a uma festa da alta sociedade.
Puxa, nunca me esqueço daquela "minha apresentação" a sociedade,
quantas sandálias lindas e sapatos femininos
de primeira linha que quase me partiram o coração.
Fui muito elogiado pelos amigos do meu "dono",
o que me deixou mais vaidoso ainda.
Foi uma noite inesquecível.
Durante 8 meses fui a todas as festas e restaurantes da moda,
viajei com meu dono de avião, de trem e navio,
sempre acompanhando-o com muita
dedicação em todos os seus momentos.
Minha vida, era viver para ele.
Até que um dia fui colocado no canto mais baixo
do guarda roupa e percebi na tarde
seguinte que um novo sapato acabava de chegar,
novo e brilhante, tão lindo quanto eu fui um dia.
E, assim passaram-se as semanas, os meses,
e nunca mais meu dono me chamou para sair.
No começo tentei me enganar,
acreditando que ele voltaria a me procurar.
Mas o tempo, cruel mensageiro da verdade,
foi mostrando que ele já havia me trocado
por outro sapato. entrei em depressão profunda.
A luz me incomodava,
as conversas dos outros sapatos me incomodava,
não via motivos para viver.
Até que um dia, eu senti aquelas mãos novamente me tocando,
pensei que voltaríamos aos nossos passeios, a vida voltou,
mas não era bem isso, meu dono estava me doando
ao seu motorista para que entregasse a alguém que precisasse...
foi minha última viagem naquele carro elegante...
O motorista levou me até uma casa muito pobre,
de um bairro miserável na periferia da cidade,
e entregou me a um senhor cuja idade era difícil de identificar.
Nunca vi ninguém mais feliz que aquele homem. seu nome era Justino,
e ele me alisou de todos os lados, lavou os pés imundos e me calçou com alegria
de criança, durante alguns minutos ele ria sozinho....
Engraxou-me, lustrou-me e guardou me como se fosse um tesouro.
No dia seguinte, muito cedo ele levantou-se e calçou-me,
saímos para a rua onde ele apanhou
sua carroça que era puxada por um velho burro,
e saímos apanhando papelão, latas,
e outras sucatas que ele no fim do dia revendia para sustentar sua casa.
Nunca trabalhei tanto, forma quilômetros e mais quilômetros
andando por ruas de esgoto a céu aberto, sujeira e lixo por todo o lado.
Nunca me senti tão cansado, mas senti que a vida voltava a minha alma.
Durante 10 anos, servi com carinho ao Justino,
homem honesto que criou quatro filhos,
e formou todos eles na Universidade com o dinheiro de sua carroça,
sua sucata e eu nos seus pés.
Sempre me levava a um sapateiro e trocava meu solado,
nunca me faltou uma graxa, um lustro e um carinho.
Até que naquele dia, naquela tarde de frio, ele se agarrou a carroça
e começou a cair, senti seu peso sobre mim, e muitos correndo para ajudá-lo.
Já chegou morto ao hospital, a cidade inteira ficou sabendo
e rumaram para sua casa, ele era muito querido.
Seus filhos, compraram uma roupa nova para ele, mas o sapato,
Deus, na sua infinita bondade e sabedoria, permitiu que eu,
esse velho servidor, pudesse acompanhar meu amigo em sua última jornada.
Sou feliz meu Deus, por servir sempre!
Graças a Deus!
Eu continuo acreditando em você!
Autor Paulo Roberto Gaefke